m.
pchemuchka

Esquisito como as coisas são.

Mesmo que eu seja alguém de muitas paixões, sei que meu peito é engolido pela escrita. Nunca por qualidade, dom ou competência. Eu nunca fui melhor que ninguém.

Mas sim, gosto de pensar que o que me mantém viva — além de todos os processos biológicos — é escrever. Inclusive, essa frase da Clarice Lispector sempre batuca minha mente:

“Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.“

Acho que nunca fui representada tão bem. Quando minha psicóloga perguntou o que penso sobre o mundo, respondi que gosto de saber que sempre terei uma novidade. Há sempre um lugar para explorar, uma comida para conhecer (mesmo que eu tenha uma seletividade alimentar ferrenha) e uma descoberta logo ali. Infelizmente, mal saio de casa. E para suprir esse vazio, a escrita me apetece.

Nada me prende, nada me sufoca. Mas desde que decidi abdicar de torná-la uma profissão com diploma e tudo (adeus, Comunicação Social!), eu sempre tive medo de abandonar. Um aviso sobrenatural que "sim, o mundo da escrita não é para você”. Que burrice, né? Como o mundo que sempre estive não é meu? Se eu sou alguém, devo tudo a ele. Há uma parte minha que nunca existiria se eu não fosse um rato de biblioteca — e se uma parte de mim deixa de existir, logo eu também não existo.

É assim, né?

No início ano, decidi que eu faria de tudo pela escrita. Mesmo dando tudo errado, mesmo com todas as oportunidades perdidas e uma maré de azar absoluta. Prometi que escreveria para mim e para quem estivesse ali. Às vezes, é difícil. Parece que todo mundo está caminhando e você é a garota amadora que reencontra uma antiga amizade e ela pergunta se você “ainda está brincando de ser escritora no Wattpad” e você tem que engolir o choro porque… talvez seja isso. É tudo pior quando você tem vinte e um anos, uma faculdade (lê-se validação) trancada e precisa passar pelo vestibular novamente (os seus amigos? estão todos encaminhados!).

É um inferno.

Mas ainda bem que não desisti. Se tivesse desistido, não estaria pensando em como a minha versão de dez anos atrás estaria chorando pensando “CARAMBA, eu estou mais perto do que sempre quis! Estou agenciada ao lado de pessoas que admiro!!!!!!! É r-e-a-l.”

Meu Deus, e não é que eu consegui?

Não sou de comemorar conquistas, fujo como o diabo foge da cruz. Sempre há algo para me fazer duvidar do que consegui e talvez eu tenha “faça algo para comemorar sua conquista” como atividade da terapia dessa semana (ainda não riscado, nem sei se irei riscar).

Mas sim, eu estou feliz. Anestesiada, porém feliz. Com medo, porém feliz. E eu conquistei isso, né? Apesar de tudo, eu conquistei.

E se eu consegui conquistar algo inalcançável, quem pode me impedir de conquistar outros?


(Talvez eu mesma)

Começos.


Quando eu era mais nova, cortava o cabelo quando tinha crises de ansiedade pra sentir que podia recomeçar sempre que quisesse assim como a sensação de uma visual novinho em folha. No banheiro, uma mecha caía. Duas. Três… ele ficaria torto no fim, mas o propósito havia feito.

Para mim, perceber que eu poderia fazer certo dessa vez era algo que acalmava minha mente. Está tudo bem errar, tente de novo. Você sempre pode recomeçar.

É uma pena que agora pareça que é a única coisa que faço: começar. Eu começo algo, nunca termino. Sempre preciso parar, desistir, abdicar, mudar… e aí me vejo lidando com algo de novo, sem sair do lugar. De novo e novo. As pessoas caminham, eu fico. As pessoas se vão, eu estou aqui.

Longe de mim reclamar, tá? Já estive pior e SUPER entendo que é necessário, às vezes, voltar do ponto inicial.

Mas quando será que vou seguir em frente? Viver em círculos é… entediante.


Março/23

eu tento

tento

tento

mas não consigo fugir

parece um ciclo sem fim

eu queria que a minha respiração encurtasse até o fim e não só me sufocasse

me sinto sozinha, mas fraca o bastante para afetos

estou desistindo gradativamente



(espero que o tratamento faça efeito logo logo.)


jan./22

Tudo bem. Acho que é uma questão unânime. Todo mundo ama viajar. Conhecer algo novo. Mas acho que tem um ponto que é meu preferido e que posso diferir de vocês.

A viagem.

Sim, aquela parte que parece não ter fim. Que você está sentada em uma poltrona de ônibus ou no carro. A maioria das pessoas que eu conheço odeiam essa parte. Se pudessem, preferiam todos irem de avião ao ter que aguentar horas na estrada.

Sim, estou falando da maldita viagem até Goiânia que dura 16 horas. Ou a ida até Mineiros, que são mais ou menos 24 horas?

Eu esqueço tudo. Eu deito minha cabeça e passou o tempo inteiro vendo a paisagem. Desde a quantidade enorme de verde do meu estado até as cidades pequenas, grandes e assim vai. Eu me sinto desbravando o mundo. E tudo bem, eu amo a parte de conhecer a cidade e sair aproveitando coisas que eu não tenho sempre.

Mas o caminho é incrível. Eu não reclamo da quantidade de horas. Eu não reclamo de uma poltrona dolorida. Eu não reclamo das pessoas contando histórias sem sentido algum. E muito menos da empolgação de quem nunca foi, questionando o tempo todo quando falta para acabar (e que pode ser eu).

E a parte que eu imagino histórias.

E eu consigo refazer todo o caminho que sempre faço. As cidades que sempre paro. E fico maravilhada com as que nunca passei. E meu coração fica em paz. Como se nesse percurso eu estivesse passando por todo o país, conhecendo todas as culturas. É o momento que eu mais me sinto eu.

Só que de alguma forma, a viagem em si me sufoca. Em instantes eu estou me sentindo desbravando o mundo, no outro o caminho parece ser para o passado. Eu olho para a janela, me lembro de mim mesma anos atrás, observando a mesma passagem. Mas não parece a mesma coisa, parece vazio.

Sempre que eu visito meus avós maternos, eu choro quando estou voltando para casa. É uma sensação de que talvez eu esteja fazendo essa rota e não seja para visitá-los. Eu choro ao perceber que mesmo que eu volte lá novamente, não vai ser a mesma coisa. Eu choro de lembrar cada momento que compôs aquele período de tempo, mesmo que não tenha sido os melhores.

E sabe, eu sempre digo que a saudade vai me matar. Mas ela deveria fazer isso rápido, cortante. Por que ela faz de pouco em pouco? Porque mesmo que tudo esteja bem, ela ainda aparece? Porque ela consegue sufocar até os momentos que não deveria incomodar? E trazer sensações de saudade que eu não deveria sentir porque não fiz parte?

[Escrito em Dezembro. Primeiro, eu viajei para Filadélfia - a cidade em que minha família tem raízes, a que meu vô paterno foi enterrado em um dia chuvoso em uma fazenda que agora pertence ao lado da familia “de lá”. Depois, eu dividi a nostalgia do fim do ensino médio com a sensação de sufoco ao, em uma viagem, passar pela casa dele em que eu tive minhas poucas reuniões em família com os laços de sangue do meu pai, provavelmente as últimas e já faz tanto tempo.]


Escrito em dez/2019 e jan/2020

Eu odeio o eu do passado. Odeio o de dois mil e dezenove, o de dois mil e dezoito, o de dois mil e dezessete e provavelmente todos os anos que já existia um “eu”. O eu de semana passada, talvez o de ontem.

Odeio o eu que magoou pessoas. O que se deixou magoar. O eu que na verdade era composto de um amontoado de coisas menos eu. O eu que por um minuto ficou feliz. O eu que deixou que a tristeza afundasse seu peito por mais tempo do que deveria (e talvez ela esteja aqui, dormindo). O eu que chorou por coisas bobas. O que quis desaparecer. 

E aí eu me pergunto se meu eu do presente também receberá ódio do eu do futuro. Eu gosto dele, gosto de como eu agi hoje. Nesse exato momento. Mas e se… não for suficiente? E aí eu serei obrigada a odiar todos os meus eu? Até os que pensavam que estavam indo bem? Eu estou indo bem, não estou?

Talvez seja isso que estrague meu eu do presente, que se tornará um dia o do passado. Eu estou tão focada em não me odiar no futuro que faço coisas que definitivamente não são o que eu realmente faria ao invés de simplesmente agir.

Então talvez isso seja uma promessa: dar o melhor, mas o meu melhor. Não o melhor que eu ache que vai me agradar no futuro. E talvez eu possa voltar aqui e dizer que eu até gosto do caminho que percorri até chegar onde estou.

26.jan/2020

TW: depressão.

Eu odeio dezembro.

Eu odeio festas natalinas e a sensação que o ano está acabando. Minha ansiedade desperta todas as coisas que eu fiz. Que eu não fiz. É o momento de saudade que mais me sufoca. Talvez parte disso venha por uma família cristã, mas não o bastante para ter ânimo de comemorar o natal.

E aí tem um dementador (eu sei que eu critico muito Harry Potter, mas posso usar esse termo?). Ele é tipo o papai noel que surge em meados de dezembro em propagandas e na mente de todos. Ele gruda na minha pele e diz que não está tudo bem, mesmo que esteja. Ele se junta com o dementador menor que fica o ano inteiro e faz uma bagunça.

E cada informação faz uma bagunça em mim. Cada informação é uma lâmina que cria uma ferida tão devagar que dói. Eu odeio estar triste. Odeio a sensação de achar que não posso ficar triste porque é, bem, o mês do Natal. Se pudesse, queria tomar um remédio que me fizesse dormir o mês inteiro para tirar pensamentos ruins da minha cabeça.

É assustador porque esse dezembro deveria estar tudo bem. Mas de alguma forma eu me lembro de todos os dezembro sufocantes que eu tive e ajo como se fosse o presente. Meu cérebro não consegue guardar tudo, apenas todas as sensações ruins que eu já tive. Os erros que cometi. E eu não consigo dormir, especialmente nessa época, porque eles precisam me assombrar toda vez que deito a cabeça no travesseiro.

E é mais intenso. Eu preciso respirar. Caminhar em um parque. Sair andando pelo centro da cidade sem objetivo nenhum. Tudo pra dizer que não sou eu que está fazendo tudo isso. Que não é minha vontade. Que meu monstro só está cansado e acaba fazendo bobagem na minha mente.

Eu sempre vivi ouvindo os professores dizendo que nunca tinham visto alguém tão ansioso o tempo inteiro quanto eu. Mas no instante que eu sinto uma crise, não é meu coração disparado e minhas pernas tremendo que mais me assusta. Não é isso que desencadeia meu pânico. É minha mente que só tem uma solução, por mais que o problema seja bobo. Por mais que seja reversível. Meu cérebro batuca uma única solução o tempo inteiro. Ele não coloca positividade, ele não diz “isso é uma bobagem que todo mundo já fez na vida”. Ele não me dá opções.

Posso dizer que eu me esforcei esse ano. Juro por Deus que eu tentei ao máximo produzir “serotonina” o suficiente para que ficasse bem no final do ano. Entrei pra dança, comecei a praticar exercícios, escolhi momentos de descer da escola e ficar deitada na grama do parque. Me diverti ao máximo com meus amigos.

E ele ainda sim volta.

E eu continuo fazendo o meu máximo. Porque sei que no primeiro dia de janeiro ele tira suas férias, deixa só o dementador menor e eu volto a ter uma esperança. Mesmo que ainda haja algo em mim. Eu crio expectativas, prometo aprender um monte de coisas novas e meu coração fica quente de novo. Eu volto do mundo dos mortos e prometo tudo. Eu agradeço por tudo que o ano antigo me proporcionou e começo de novo.

Até que chegue o dia que eu não precise ter medo de um mês qualquer.

23.nov/2019

Eu gosto de falar que sou escritora, mas acredito ser uma meio escritora. É que eu acho incrível como escritores conseguem criar personagens diferentes, maus, bons… Sem precisar se espelhar em si mesmo. No meu caso, eu sempre me vejo um pouco em cada personagem.

Como alguém não-branco, eu tinha medo da minha descoberta em ser lésbica. Porque se havia representatividade lésbica, com certeza não era pessoas fora de um padrão. Com certeza eu iria me inserir menos do que se fingisse não ter um rótulo. Como Valéria.

Por mais que eu trocasse de lugar o tempo inteiro, eu nunca me senti aceita. Não tão rápido. Era algo sufocante de início. Eu queria sair. Queria nunca mais pisar os pés e passar o dia na cama aceitando que talvez não existisse um local onde eu fosse a peça que faltava. Como Ícaro.

Minha infância era sempre uma sensação que se eu sumisse. Se por um segundo, um alienígena me sequestrasse e nadica de mim existisse mais nessa terra. Ninguém se lembraria. Tudo bem, sentiriam falta mas do que? É substituível? Então meu esforço era o título de engraçadinha da turma, porque por mais insuportável que eu fosse, as pessoas ainda teriam uma vaga lembrança. Mas se eu não me esforçasse, se eu tentasse ser eu, talvez eu fosse tão esquecível como MeropeOu tivesse o mesmo medo que Ana Abelha tem.

Mas no fim, se pudesse eu seria uma mistura das protagonistas sem ponto de vista. Eu talvez tivesse tido atitudes tão ruins quanto Morgana e estivesse tentando melhorar. Ou talvez eu tivesse um medo tão assustador quanto Pietra. Mas provavelmente eu estaria depositada em Lia e seu ódio a saudade.

Primeiro, a gente não devia ter dado tanta atenção pra essa palavra. A gente devia ter ignorado. Quando as coisas tem nome, elas são mais intensas.

Em um segundo, está tudo bem. No outro, é como se o momento mais importante da minha vida fosse as noites jogando tartarugas ninjas. A viagem de pau de arara para ver meus avós. Uma tarde brincando de bonecas legais com uma garota que eu nunca tinha visto (e nem ao menos me lembro quem é). Do meu pai me levando pra passear pela cidade quando eu comecei a ficar mal. Do pão caseiro da minha mãe. Do meu gatinho com o miado mais fofo adotando a gente aparecendo na janela de casa. Da minha família paterna reunida na casa do meu avô. De uma festa de aniversário que ele fez com mais de setenta anos com comidas infantis apenas pra satisfazer a criançada. Do dia seguinte ele indo ao hospital porque eu levei pontos na testa em uma brincadeira idiota. Dele sorrindo me dizendo que eu estava muito bem da última vez que nos vimos.

Da sensação que eu tive no instante que descobri que ele morreu. Primeiro, eu não sei lidar com o luto. Lembro do choro ter ficado entalado na garganta. Mas eu não chorei. Lembro de ter deitado na cama, mas no momento eu não tive nenhuma memória. E isso aconteceu no dia seguinte, no outro. Até o momento em que eu cai na real. Que todos os momentos passaram de uma vez fazendo minha cabeça querer explodir.

E eu odiava o jeito que ele estava antes de morrer, eu realmente queria que ele descansasse. Mas era doloroso. Doloroso saber que uma parte da minha vida sumiu. E não que eu acreditasse que ainda haveria momentos como aquele, mas é só aí que a gente cai na real. Não vai ter mais volta da chácara com ele contando histórias. Não vai ter mais a sensação que por mais distante que ele estivesse, ainda estaria ali.

E acho que o medo voltou. Ele estava descansando. Talvez fingindo que aqui é uma realidade bonita. Eu não quero conhecer novas pessoas. Não quero ter mais gatinhos. Porque por mais que os momentos fossem incríveis, é mil vezes doloroso o vazio no peito. A sensação de ter falhado.

A sensação que talvez eu seja a primeira pessoa a morrer de tanta saudade.

14.nov/2019

Eu tive um decaimento. Tipo, no sétimo ano? Eu acho que todo mundo passa por um determinado momento em que de sociável pra caralho você passa a ser o tipo de pessoa que não consegue falar com ninguém novo. Bem, acho que o meu foi no sétimo ano.

[Pausa para uma informação importantíssima: meu pai são separados desde que eu tinha uns 10 anosMeu contato sempre foi via telefone com minha mãe, religiosamente todo final de semana era um ligação. Então eu acabei sendo inserida muito rápido na internet porque ligações interestaduais eram muito caro.]

E todo mundo tem o momento da sua vida em que você é um prodígio, alguém que mal toca nos livros ou estuda porque sabe que vai se dar bem. Então era previsível. Eu e o celular.

E sites de curiosidades.

Lembro de enviar a cada mísero segundo um curiosidade pra minha mãe, no início do tal WhatsApp. Eu passava horas e horas recebendo informações desnecessárias. Acho que meu favoritismo de início eram os olhos (por Deus, ninguém aguenta mais ouvir sobre anomalias no globo ocular ou que apenas 1% da população tem olhos “verdadeiramente” pretos).

E desde sempre eu tive medo de coisas grandes. Coisas exageradamente grandes. Quando criança um único pesadelo de um gato de seis metros de altura foi o bastante para que eu não conseguisse chegar perto por um bom tempo de felinos. Não gostava de se sentir pequena.

E aí entra o universo. Bem, você sabe que plutão já foi planeta? Ou que chove diamante em saturno? Que algumas pessoas tem dificuldade em associar a palavra netuno (ou neptuno) a um planeta? Quer dizer, quantas vezes você ouviu alguém falar netuno? Eu sou mil vezes menor que um grau de areia perto do universo.

Quer dizer, a gente tá no universo. Em uma galáxia com um nome que eu sempre associo a leite. Mais especificamente em um sistema solar, dividindo espaço com mais… oito planetas e outros corpos celestes e uma penca de coisas? E sabe se lá quantas galáxias tem lá fora. Maiores ou menores que a nossa. Na concepção de um único indivíduo, só a terra já é gigante.

Como será a sensação de estar sobre um satélite natural, vendo algo enorme a sua frente e saber que aquilo é sua casa? Por pior que fosse?

Primeiro, eu acho que me sentiria sozinha. Tem bilhões de coisas ao redor. Coisas que nem sabemos. E ainda sim eu me sentiria sozinha. Mas e na terra? Às vezes a gente não tem a sensação de estar sozinho? De ser o único habitante do planeta inteiro? Eu nunca gostei de me sentir pequena. Nunca gostei que as pessoas me fizessem virar um grão em segundos. Eu me sinto como o Pennywise, que diminui cada vez que as pessoas param de ter medo dele.

Ou como uma Baleia, a tal dos 52 Hertz. Eu tô falando tudo, mas ao mesmo tempo nada.

Bem, acho que eu devo voltar ao ponto inicial.

Eu sempre tive medo de coisas grandes. Eu sempre morria de medo ao pensar em de alguma forma maluca eu estivesse diante de uma estrela gigante, tipo Rigel. Sim, hipoteticamente eu suportaria todo o calor.

É como ter medo de um animal raríssimo que está no fundo do oceano. Qual é a possibilidade de um encontro acontecer?

E de alguma forma pra mim, o universo era assustador. Não tô dizendo que agora não seja, mas a sensação de antes era… sufocante. Porque sua grandeza me fazia se sentir pequena. Qual é a minha significância em um universo cheio de estrelas gigantes? De chuvas de diamante? Com possíveis alienígenas?

Qual é a minha significância na terra?

Eu tinha vários projetos infantis. Cozinheira, jornalista, cantora (mesmo que minha voz estivesse no ranking das mais desafinadas do planeta)… Absolutamente tudo. Exceto astronauta. Eu não queria me meter com o universo.

E agora eu sinto como se fosse um universo a parte, trilhões de vezes menor que o real. Mas um universo. Um universo pititoquinho. Ao redor de outros sete bilhões de universos. Um universo em cada esquina.

Às vezes, o peso me sufoca. Eu me lembro de todos os meus medos em me sentir insuficiente. Eu paro. Eu quero que o universo se rompa. Eu quero sair dele. Eu quero ter o universo de outra pessoa. Eu quero ser diferente. Maior.

E em outros, eu me sinto estranhamente bem em ser pequena. Eu me sinto como um momento rápido que de tão bom ficou gravado na mente. Eu me sinto tendo uma singularidade. Me sinto significante em não ter significância para um universo tão grande. Eu sinto que eu sou eu e não preciso de absolutamente mais nada.

E não tem um meio. Não tem uma fuga disso. E os dois são tão intensos.


30.out/2019

No começo do ano chegou um novo aplicativo de leitura em que você cadastrava os livros já lidos, o que deseja ler e entre outros. Uma das tais opções me veio a ser o livro favorito. Na hora, obviamente, eu pensei “É As Peças Infernais, não é?”, mas minha mente não conseguia enxerga aquilo como o melhor livro de todos. E em seguida me veio “O Jardim Secreto”, que eu mal lembro a história.

(Por fim, se quer saber, o merecedor dessa posição se deu por A Nuvem de Grudun Pausewang, por enquanto.)

E com esse acontecimento, comecei a me questionar por que diabos eu conseguia entender esses livros como meus favoritos. E óbvio que chegou na explicação óbvia: meu favoritismo por James Carstairs e Mary Lennox — e a pequena semelhança que os dois possuíam em comum.

(PODE CONTER SPOILERS)

Se você procurar a sinopse de As Peças Infernais, verá que a história gira em torno de um triângulo amoroso composto por Jem, Tessa e Will. Tessa é uma feiticeira que ainda não sabe muito bem sobre esse mundo, Will é um caçador das sombras metido a bad boy e com um sobrenome notório e Jem é um caçador das sombras moribundo.

Sim, a característica que darei é moribundo.

James Carstairs, na minha opinião, não tem um foco bonito. Seu objetivo é mais por pena. Nascido na China, perdeu os pais e foi contaminado por um demônio. Essa doença gerada o obrigou a precisar de uma droga pra sobreviver. Seu parabatai (um laço extremamente forte) só aconteceu porque Will, acreditando estar sob uma maldição que mataria todos que ele amava, se aproveitou do fato que ele já estava morrendo pra se aproximar.

Ele não tem um brilho real no livro. Se você se apaixonou pelo personagem, criará nas entrelinhas.

No instante que ele vai conhecendo Tessa, vai fluindo uma paixão. Mas essa paixão também está fluindo de certa forma com Tessa e Will. E como comparar? Jem está morrendo, o tempo inteiro. A sua única chance de demonstrar estar saudável é usufruindo cada vez mais de uma droga viciante. Droga viciante que mais tarde desaparece do mapa, o deixando em abstinência, na tentativa que o vilão consiga seu objetivo (ter Tessa).

Mesmo que alguém venha bater na tecla de que “as pessoas o amam e não é por pena”, é perceptível que essa é a primeira sensação.

Em uma cena, Tessa e Jem estão em amassos que esquentam cada vez até que cabum o último pó que sobrou da droga cai no chão fazendo com que ele pare tudo e se abaixe para tentar recuperar um pouco. Ele até menciona algo do tipo como “Vá embora, eu não quero que a garota que eu amo precise me ver tentando pegar a droga que eu uso pra sobreviver”.

Mais tarde, em um ataque ao instituto em busca de Tessa ele se sente incapaz ao tentar a defender dos ataques e não conseguir por estar fraco. E aí que, nos seus últimos suspiros, ele descobre duas coisas: (1) a garota que ele gosta foi raptada e (2) seu melhor amigo a ama.

E o que ele poderia fazer?

Estava morrendo, não podia simplesmente ter um sentimento de raiva pela pessoa mais importante em toda a sua. Doloroso. O que diabos faria além de dizer que estava tudo bem? O que ganharia impedindo?

Para piorar toda a sua vida de dar pena, Jem resolve virar um Irmão do Silêncio para impedir sua morte e proteger as pessoas que ama. Primeiro, ele AMA música. Um dos seus símbolos é um violino. Ele menciona várias vezes que não consegue viver sem música. E adivinha o que ocorre quando ele muda? Isso mesmo, nada de música. Absolutamente nada. Segundoa história de Irmãos do Silêncio não é nada bonitinha.

Então ele vive décadas e décadas. Vê seu melhor amigo casar com o amor da sua vida, vê os filhos, vê as pessoas que amam envelhecer, morrer. Mas continua lá. E novamente sua vida se cruza com um Herondale com sangue de anjo que o cura e quebra todos os rituais do Silêncio, o deixando normal novamente.

Sim. Só que no século XXI.

E utilizaremos outra frase do livro que eu não me lembro muito bem, mas vou tentar transcrever algo. “Os séculos não fazem a dor ser esquecida, apenas suportável. Magnus a suporta.”

Jem voltou no século XXI, mas a maioria das pessoas que ele ama estão mortas. Com exceção de Tessa. E aí eles vivem o tal feliz para sempre.

Mas que melancólico, não é? Ter um casamento com fantasmas do passado presente. Não ter uma história que não seja pra dar pena ou ser visto como o bonzinho — ou vangloriar outros (Jace o salvando, meus deuses). O desenrolar da sua história gira praticamente em ser o par de Tessa em algum momento e ser moribundo enquanto Will tem todo um desenrolar que deixa todos fascinados (com pena também? talvez).

E aí vem Mary Lennox (que veio de um livro que eu demorei tanto pra devolver quando era mais nova que a bibliotecária me deu).

Mary tinha o mesmo nome que eu e era a insuportável. Eu não me lembro direito, mas se não me engano a família na Índia vai morrendo por uma doença e ela é enviada para fazendinha/rancho de um tio. Todo mundo tem um julgamento sobre ela.

(Pausa pra dizer que eu vou falar só o que lembro então muitíssimo pouco).

Ela não tinha contato com crianças. Tinha tudo o que queria. Como alguém poderia esperar que ela não fosse daquele jeito? Os pais, como é sempre citado, mesmo quando vivos não eram presentes. Quando ela se muda, o tio também não é.

E aí ela encontra o tal Jardim Secreto e descobre o primo dela, que está morrendo e em uma cadeira de rodas. ABSOLUTAMENTE todo mundo sente pena dele. Ele é como ela, mimado. Tudo e todas as coisas por medo que ele morra no dia seguinte. E por mais que a situação seja digna disso, Mary não sente pena. E acho que isso foi um dos motivos para que ele se recuperasse, ficasse mais disposto. Criassem amizade.

Sabe? Um rompimento. Você encontra uma pessoa que não está com pena da situação. Que no final fica ali por você, por mais insuportável que fosse a amizade entre os dois no início.

E aí eu me perguntei.

Por que diabos?

Porque eu pensei em uma época que aquilo seria assim pra sempre. Que eu seria James Carstairs passível de pena. Que meus laços seriam formados, mesmo que mudassem mais tarde, por pena. Que as pessoas olhariam e diriam “mas ela? coitada!”. E ver Mary Lennox contestando o primo pra brincar e o vendo unicamente como uma criança era incrível. As farpas trocadas. Tudo.

(E eu sei que O Jardim Secreto tem uma melhor moral da história, mas não vem ao caso.)

Mas hoje já não é mais bem assim. Por hora, não me sinto vulnerável. Fraca. E talvez amanhã ou depois eu esteja. Mas, por enquanto, eu estou sem um livro favorito.


Escrito em 2019